quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Delivery



Quando caíram-lhe as retinas, o cego Josias já havia completado pouco mais que dez anos como contador do Tribunal de Contas... Dizia ele que foi durante o exame de uns orçamentos onde a fraude saltava aos olhos.

Portanto, aposentou-se ainda novo, com menos de 40, levando o salário integral para sua casa agora escura. Mais tarde, um advogado de portas afora conseguiu-lhe uma indenização por insalubridade: conseguiu provar que a luz fora-lhe tomada por razões de doença laboral - mais de dez anos de vista grossa obrigatória.

Estava mais bem de vida do que jamais estivera. E cego como uma porta.

E é justamente por isto que “mandava vir” e não ia ele próprio...

Muito bem.

Já havia telefonado e esperava.

Chegou. Imediatamente ele adotou o cachorrinho, sua posição preferida... Foram só uns minutos de língua entrando em ouvido, para acender bem a moça. Ele já estava.

Arrancou a cueca, que era a única coisa que vestia dentro de casa, nos meses de Verão. Sintonizava os botões dos mamilos – e eles eram duros, firmes! -, enquanto, com a boca, continuava o trabalho de sugar aquelas orelhas cheirosas e chupar uma boca carnuda, quente e gostosa, que não podia enxergar...

É claro, durante este encaixe traseiro de bocas e pescoços meio torcidos, o cego ia com a pica - ceguíssima de ardores - buscando o talho molhado onde, entre uma arremetida e um resvalo frustrante e outro, ela, a pica pulsante e empinada em grossa verga, haveria de achar por si mesma o caminho e penetrar profundamente, até o talo e de saco puxado para trás - a modo de inteirar pica -, na menina-delivery sem nome...

Depois seria o de sempre... Um cigarro após a primeira e uma conversa leve, de ceguinho simpático... Seria, justamente neste bate-papo, entre a primeira e a segunda trepada, que surgiria naturalmente o assunto...

Que ele, um pobre homem cego, tinha lá a sua fantasia não realizada de penetrar, somente um pouquinho, somente com a cabecinha, um cuzinho – carinhosamente e só para experimentar...

Mas primeiro a caverna das delícias! Ah! E seria vara no útero, estocada mesmo, com a chapeleta rombuda e de bom calibre que Deus lhe dera... E lavar aquelas entranhas quentes com dois ou três jatos poderosos de esporra, porque os outros, os subsequentes, não seriam tão fortes... Mas, sim, ainda iria muita coisa. E, depois, mais – no segundo tempo...

Mas esta... Seria novata? Seria apertada ainda? Nunca se sabe – e tudo tem um começo, até putinha-delivery... Ou, talvez, não; podia ser por causa da sorte... essa, essazinha... roliça e cheirosa como nenhuma das que já recebera antes!... Que coisinha!

Bem. Podia era ser que ela o tivesse acendido até o ponto de que houvesse perdido o senso de direção – e já não sabia mais o que mais desejava: se sugar, resvalar, apertá-la por trás e continuar rodando-lhe as maminhas... Ou alcançar logo – mas seria acabar num instante! – àquela racha de carne molhada...

Varadíssimo, envergadíssimo e no paroxismo total do tesão, o cego Josias sentiu-se prestes e jogar tudo aquilo de leite vulcânico num lado qualquer, de fora; e isto não queria. Seria desperdício demais...

Então apelou. E largou um dos peitos, pegou a cabeça da rola – que estava pulsando mais do que coração de coelho que sabe que vai morrer... Foi guiando a caralha, com a mão, mas encontrou... outro caralho e um saco, pesado e ovudo na parte de baixo das nádegas!

Em transporte de desespero e de deleite – não fosse tudo explodir repentinamente -, guiou a glande larga e lubrificada com o espírito de esperma que já minava da uretra ao ponto de escorrer... E atolou o caralho profundamente num cu rebolante, dançante e de movimentos planetários de batedeira... Até gozar, como nunca havia gozado – jamais! – antes...

Trimm... Trimm... Trimm...

- Alô! Seu Josias?

- Ele mesmo! Não tinha outra hora para ligar?

- O senhor desculpe... Houve um engano... Quando a moça chegar aí...

- O que aconteceu?

- Ela pegou a “comanda” errada. Ela era para outro cliente... O senhor mande voltar, sim?

- Voltar?...

- Sim. Assim que chegar aí. Porque já mandamos a garota certa... Já vai chegar... meia hora...

- Tá. Eu mando embora.

Em seguida, o cego tentou recolocar o telefone no gancho... mas... estava ainda tonto... e não encontrava a base do aparelho: descompensado, lânguido; desfalecia – quase...

Atirou o fone no chão e abraçou novamente, com ardor redobrado, a mocinha maravilhosa – que viera por engano...

- Você não volta mais, viu? Se quiser, fica aqui... Mora comigo – e eu te dou de tudo...

- Danadinho...

- E agora me enraba, mulher dos diabos! Cavala!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Intercessão


- Mãe! Você por aqui... Não veio ontem...

- Ocupada, meu filho. Lavando, passando e ainda fiz uma faxina... Trouxe bolo.

- Oba! É de cenoura? Não devia se matar deste jeito...

- Fiz de laranja. Dizem que a cenoura está que é puro agrotóxico.

- Quais são as novidades? O que se conta de bom?

- Está tudo velho. Não anda lá essas coisas. O de sempre...

- O de sempre e como sempre, não? Chega a dar tédio... Humm está uma delícia!

- Você quer que eu faça café?

- Obrigado, mãe, mas estou evitando. Parei com o cigarro...

- Não devia comer nada a seco. Você sabe a prisão de ventre que tem...

- Você tem razão. Não obro há dois dias. Aceitaria era uma vitamina das suas... Faz?

- Agorinha mesmo. Já comprou a aveia que tinha acabado?

- Hoje mesmo. Ainda está naquela sacola, em cima da pia...

- Meu filho... Isto está uma bagunça... E você nem me deixa arrumar...

- Mãe, não quero abusar. Não ligo para isto – e você não é mais nenhuma garotinha...

- Eu vim pelo Jurandir. Está se esvaindo. Agora é só água e já falaram no cólera...

- Cólera divina, com toda certeza. Sempre fazendo por onde...

- É fraco, não sabe? Sempre fez o que pôde.

- Verdade. E sempre foi rápido em entregar-se àquilo que não pôde...

- Meu filho, ele está muito mal... E sofrendo bastante. Sempre sofreu. Você podia...

- Talvez sim, se ele merecesse. Mas, você sabe: é um verdadeiro pilantra!

- Coitado! Com aquela vida que tem... Sempre sem chances de endireitar o rumo...

- Eu sei. Mas... sei lá... parece que já não tem jeito. E acabou gostando assim mesmo.

- Nós já vimos gente pior... E que acabou se acertando...

- Um aqui, hoje... outro ali - uns dez anos depois...

- Eu sei, meu querido. Tudo muito difícil... verdadeira odisséia...

- Lembrou bem! Homero era cego: e olha o trabalho que fez. Lutou, se esforçou.

- É assim mesmo. Uns deixam obras, outros deixam filhos; crianças que vão passar fome...

- O Jurandir já anda em que número?

- Quatro meninos e cinco meninas. Tudo ainda pequeno, naquele capinzal esquecido...

- Não perdeu tempo, não é? Que gente! Dão sempre um jeito de piorar as coisas...

- Eles não sabem direito o que fazem... Meu filho... ele me pediu tanto!

- Imagino. Nessas horas é que se lembram...

- Já é alguma coisa. Tome, beba tudo: não botei muito açúcar, porque faz mal aos dentes...

- ...to boa, só mesmo você... não há lanchonete que imite isto... consola a gente...

- Tão fácil... E não dá trabalho nenhum... Meu filho, faça isto pela sua mãe...

- O que a senhora me pede chorando... que eu não faça sorrindo?... Não sai um beijinho?...

- Tome, querido. Você anda tão magro...

- É de trabalhar de graça... Já está, mãe! Parou a corredeira, e amanhã o bruto levanta.

- Obrigada, meu filho! É muita bondade! Sabia que iria ter pena...

- Vai, minha velha. Eu agora tenho o batente... A senhora devia era fazer o curso de Direito...

sábado, 24 de outubro de 2009

Esse Orkut...

Acordei no meio da noite. Normal: dormi para caráleo à tarde...
Daí fui caçar o que fazer, sei lá... Matar o tempo.

Ler, a essas horas? Pois se já estou tão cegueta! Além do mais, comprei dois livros que já tinha lido, e não me dei conta... Conforme vou lendo, um ou outro dos volumes do "Mar de Histórias", organização de Paulo Rónai e Aurélio Buarque de Hollanda, vou vendo que esses eu já devorei - e faz é tempo! Mas... droga! Ainda lembro todos os contos...

Olhei as páginas dos jornais: o de sempre. Facebook? Não, já saí, deixando uma imagem indecente naquele ambiente de assepsia artificial (ali, todo mundo é educadinho, sem ser).

Vamos para o Orkut! A comédia.

Visito a página de um e outro. Deixo um comentário tosco numa comunidade não menos tosca.

Contemplo, na página de uma nova amiga, umas mensagens coruscantes, dessas que você já pega - prontinhas! Então, resolvo fazer também a minha e deixar lá, no scrapbook dela.

Faço, rapidamente, um pequeno trabalho no Photoshop e escrevo duas ou três quadras rimadas.

Pronto! Postei. Ficou legal!

Pronto! O Orkut apagou, automaticamente - porque este tipo de scrap, que contém foto oriunda de um álbum do próprio Orkut, pode ser muito perigoso e conter pornografia, (coisa que acabaria com o mundo). Que pena! Tinha ficado até engraçadinho...

Vou tentar reproduzir aqui (de cabeça!), já que tudo é um só improviso...

Vamos lá!

Karla Princesa...

Também gostaria de mandar-te
Uma mensagem linda, a rebrilhar...
De bela, fina - e pronta arte!
(Mas eu não sei onde pegar)...

Então vai mesmo esta, rabiscada
No Photoshop, malcriada
Dizendo que o afeto, a benquerença,
Podem bem, sim, conviver na diferença...




A moça é uma bela promessa. Pois então, ela, que vive cercada pelo açúcar vagabundo da Internet (tão jovem!), não é que vem intuindo o meu humor sulfúrico?! E, intuindo, vejam o que esta menina me manda:



Dez! (não, dez mil!)

São poucas, mas ainda resta alguma esperança. Humor, intuição = talento. E a minha vocação é mesmo a de tentar parturiar esses jovens que se destacam, de uma forma ou de outra:

Avante, putada!

A tempo:
Os versinhos ficaram levemente (bastante!) diferentes daquilo que havia saído de prima. E ficaram ainda piores, se isto for mesmo possível.

Legal. Os versinhos cometidos foram parar, de alguma maneira, no e-mail da nova amiga. Ela teve a gentileza de mandar-mos, de volta - já que não tinha, eu, cópia deles:

Karla Princesa...

Também eu, desejaria mandar-te
Mensagens elaboradíssimas e piscantes...
Lindas e ofuscantes...
Esta pronta e linda arte!

Mas não sei como fazê-lo,
Nem onde encontrar modelo
Que expresse: " a amizade, a benquerença"
"Pode acontecer na diferença"...

No Photoshop, com uma imagem,
Eu vou e traço a rude mensagem
Daqueles que não sabem açucarar
A amizade, o dom de rir - e de amar!


Pronto. Poetei.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Rancor, ódio, impotência: desesperança

Artigo

Mataram, num assalto, um cara do AfroReggae. Nem conheço.

Coitado... Por causa de uma jaqueta e um par de tênis. O cara era fodido, não queria se desfazer assim desses bens. Ele reagiu. Então, os bandidos, que eram - até ali - dois, mataram o cara.

Umas câmeras, dessas que ficam ligadas o tempo todo, gravaram o assalto. Alguns segundos após a vítima ter sido baleada e saqueada, apareceram uns PM. Eles viram tudo - e só interferiram depois. Como as hienas, quando não conseguem matar por conta própria, esses policiais, esses servidores da comunidade, esses filhos de putas, tomaram a presa daqueles que haviam feito o serviço: a jaqueta, o par de tênis - e, é claro, a arma. Liberaram, então, imediatamente, os assassinos.

Está aqui, ó:


Vamos, então, falar alguma coisa sobre a PM - e a Polícia, em geral.

Estamos muito bem servidos de policiais. Eles não sabem sequer segurar uma arma. Seguram de qualquer jeito, principalmente pelo carregador... Parece que não receberam treinamento suficiente - e nem adequado. A gente sente que eles fizeram tudo da mesma maneira que na escola. Nas coxas. De bunda.

Pois bem. Em lugares, países, que não são um cu, até mesmo as barbies sabem empunhar uma arma. Ah! Esta aí da foto não é de brincadeira não: trata-se de uma Hell Kitty AR-15, fabricação Colt, muito popular no ambiente feminino.

Não sei. Parece que a gente segurando o fuzil pelo carregador deixa um pouco menos de cara - e de cu - expostos. Mas está errado. Está muito errado. Desequilibra tudo: pontaria, empunhadura - além de estragar a arma. Está errado. Isto e outras coisas também.

Já disse um ex-comandante qualquer da PM que "a corporação somente teria jeito se expulsasse todo o seu efetivo e começasse tudo outra vez, com outras pessoas..." O mesmo vale para a Polícia Civil, não é mesmo? Quem não sabe disso? Pois se estão todos fazendo bicos, o tempo inteiro. Bicos criminosos, na maioria das vezes. E são eles mesmos "a milícia". Tudo pago com o dinheiro extorquido do contribuinte (via impostos compulsórios).

Não se empunha um fuzil pelo carregador, nem pelo caralho. Em lugar nenhum. Só no Brasil.

Seja ele de qualquer tipo, de qualquer fabricação. No Iraque isto dá até pena de morte.

Até Didi Mocó sabe disso. E não põe a mão no carregador, nem se estiver usando tripé.

Porra! Está errado, muitíssimo errado, a gente ter um país em que a polícia é tão perigosa ou mais ainda do que os próprios bandidos! Pelo menos, a gente não assalaria esses. Nem dá uniformes, rancho, assistência médica e aposentadoria. A gente dá o dinheiro, o carro, até mesmo a mulher. Mas isto somente quando é assaltado. Nós não damos "carteirinha de prender" aos bandidos. Nem viaturas. Uniformes. Helicópteros.

Acho que não damos. Ou, se damos, não deveríamos dar.

Se o cara é militar, de qualquer corporação - seja do Exército ou da Tropa de Matamosquitos -, tem que haver a corte marcial e a pena por alta traição.
Antigamente a carreira dos "valorosos matamosquitos" ia até a patente de cabo (equivalente a general, nesta corporação). Hoje não sei.
Mas é tudo igual. Ou não? O Exército Brasileiro não cagou o pau inteirinho quando foi posto para trabalhar por uns poucos dias? E o que dizer dos bombeiros, comandando de frente a venda de botijões de gás, via milícias? Está errado sim.

Pega na porra da ferramenta e faz o serviço direito. Relapso, ladrão? Cadeia! Joguem-se as chaves no lixo.

Não sabe? Não conseguiu aprender? Não ensinaram direito? Eu sei: o governo é o que há de pior, de mais infecto, latrinário, abjeto. Não há academias que prestem, nem seleção séria, permanente, que afaste tantos oportunistas criminosos - loucos por uma carteira de policial.
Este mesmo governo é o suicida que joga tudo em quatro anos: roubar, desviar. É conseguir a grana suficiente para eternizar-se no poder ou então desaparece com o troco.
E o que vier depois que se foda.

Então deve haver alguma coisa errada. Erradíssima. Porque "sistemas" não nascem prontos. E nem dão em árvores.

Já disse: não se toca no carregador da arma, nem mesmo quase cagando.

Ou cagando, de fato!

Está com medo de sustentar a arma pelo punho de fábrica? Experimente um acessório. Mas não faça a coisa errada, tão errada assim. Porque já está parecendo que a gente vive num país cu mesmo. De verdade. Um imenso e malcheiroso cu, com bandeira, hino e presidente.

Isto não é feito em lugar nenhum: firmar um rifle pelo carregador. Pelo menos com tanta frequência. Deve haver alguma coisa muito errada no nosso ar, na nossa água, alguma coisa que contamine de forma generalizada um país inteiro. Contamine e faça com que as coisas aqui saiam erradas. Erradas demais.

Não se segura uma arma pelo carregador. Nem mesmo quando ele é grande, tentador. Caso contrário, fica parecendo - cada vez mais - que a gente está morando dentro de um cu.

E quanto ao fato de que a Polícia - que é paga para defender o cidadão - só faz é trato com bandido, por qualquer jaqueta de pobre, por qualquer par de tênis usado, isto é caso indubitável de aplicação da pena capital. Não faltariam voluntários. Até mesmo nós, os velhos: bons e pacientes atiradores.


No decorrer da atual "Guerra do Rio", mais de 30 delegacias tiveram os seus comandos trocados. O mesmo está ocorrendo em alguns batalhões da Polícia Militar. Por quê?

Nos bairros, o delegado se assenta: começa a receber o dinheiro do "arrego", vindo dos traficantes. Daí, tudo corre às mil maravilhas nesses imensos e variados territórios que não mais fazem parte do corpo da União.

A obtenção de armamentos capazes de derrubar helicópteros é somente uma das consequências suicidas deste "arrego". Por dinheiro, até mesmo gente do BOPE está roubando armas de seu arsenal, para vender aos bandidos. E é tão doentia, tão violenta a sanha por dinheiro, que esses soldados estão roubando a descoberto, às pressas, sem sequer se ocultarem direito. É uma doença, uma doença gravíssima. É assim a vida dentro de um cu.




Agora todo mundo, juntinhos: empunhando e atirando com a arma de maneira errada. Profissionais...


Upa! Upa! Ainda tô com aquele porco do almoço me pesando no estombro! Acho que preciso perder uns cem quilos... Pelo menos, não estou segurando a arma pelo carregador (isquicí!), mas meu colega está... óia só ele, lá atrás...


quinta-feira, 11 de junho de 2009

Despertar



Só depois lembrei do hospital. Bem depois. E foi lembrança rápida, embora daquelas intensas, que trazem consigo os aromas e também as dores. Mas isto foi bem depois.
Primeiro veio a lembrança daquela manhã. Ventava alto, lá pelas copas das árvores. No chão, nada se movia. Manhã amena, coisa de abril ou maio, talvez. E o silêncio.
A folhagem verde-nova brilhando antes do céu, azul puríssimo, sideral, bem ali acima do Campinho – um terreno abandonado onde despejavam o lixo.
E a mosca. Foi ela, quase parada em seu vôo, brilhando verde-metálica, quem me despertou. Olhei o céu e vi o vento, nas folhas largas da amendoeira grande. E alto, altíssimo, o azul. Então foi que senti: estou acordado.
Mas agora me chamam e preciso ir. Talvez seja minha mãe. Tenho de ir e viver a vida. Afinal, ainda não completei três anos de idade, dois e pouco, parece.
Se cada despertar é um milagre, uma ressurreição, o primeiro deles, o despertar da consciência, é uma ressurreição de fato. E deixa a maior de todas as lembranças. Vive-se sessenta, noventa e poucos anos. Ou dez. Uns acham pouco, outros demasiado… Momentos de quase glória e de ruína; lembranças, esquecimentos… E o mais de tudo, absurdamente, – aquilo que volta sem ser chamado – é, quase sempre, um momento que parece estúpido, insignificante em si.
O menino cresceu, vingou como a erva daninha num pasto – que apesar de cortada, arrancada, ninguém extingue toda. E resistindo aos cortes, nos pés, no coração, viveu. Varou o mundo-largo – mas também cumpriu as longas e penosas sentenças do tédio. Não há escolha. Nenhuma. Acontece.
Outra vez despertei. Já não era um menino. Pelo contrário, um homem velho e doente. Exausto.
Me lembro que era noite e que era tarde. O hospital, os cheiros. O peito me doía forte. E, por causa da dor, a visão me turvara em névoa espessa. Ainda assim não pude deixar de notar uma criança pequena, que tinha os cabelos empapados em sangue, partir pouco depois de ter sido colocada ao meu lado, numa espécie de maca.
Não sei o tempo e o lugar. Isto não tem importância. Não havia luz elétrica e a penumbra virava escuridão em alguns pontos daquilo que parecia ser um quarto antigo. A dor, ela própria, foi me aliviando, colocando-me num estado de quase insensibilidade física. Mas o pensamento pulsava; o medo foi se transformando numa espécie de indiferença. À minha volta havia uma movimentação apressada de pessoas sem rosto. Depois, um cantinho da sala, onde a treva era mais densa, foi crescendo, se aproximando de mim e espalhou-se – até tomar tudo. Então acho que foi aí que esqueci de mim.
Somente fui me lembrar, novamente, sob a amendoeira grande – encantado com as cores daquela mosca metálica que brilhava ao Sol.
Não tive sonhos e de outras coisas não lembro. A Morte não explica nada.