terça-feira, 26 de maio de 2009

Literatura em agonia












Ah... Dia de ir à biblioteca! Devolver os livros e, principalmente, pegar outros...

Não posso dizer que não usufruo nada do Estado. Usufruo-lhe, como posso, a Biblioteca Estadual Celso Kelly - Av. Presidente Vargas, 1.261, Centro, Rio de Janeiro.

Não é nada, não é nada, lá existe uma edição completa das "Memórias de Giácomo Casanova de Seingalt Escritas Por Ele Mesmo" , em 10 volumes que estão em bom estado. Há também alguns livros desgarrados de uma coleção das obras de Camilo Castelo Branco, edição recente, portuguesa, em excelente encadernação.

Em meio a alguns milhares de livros que jamais deveriam ter sido escritos - e muito menos publicados -, pode-se encontrar algumas poucas obras excelentes como, por exemplo, os relatos completos de Spix e Martius - que são pura aventura, escritos numa linguagem científica, mas, ainda assim, acessível a qualquer mortal. Alguns livros dos melhores autores russos, além de uma quantidade razoável de boas biografias.

Entra-se, quando está em funcionamento, por um funil que há na portaria e onde foram cravadas duas roletas - de ônibus mesmo: uma para entrada e outra para saída. Não há sinalização e ambas giram em ambos os sentidos. Se você, ao chegar, escolher a da direita, não haverá o menor problema: estará já dentro. Se escolher a da esquerda, idem. Mas se o guarda, por acaso, estiver em seu posto e você houver "entrado errado", ele lhe pedirá para sair e depois entrar novamente, pela roleta certa. Entra-se pela roleta da direita e sai-se pela da esquerda, anote aí porque não há nenhuma placa ensinando isto.

Escreveu não leu, não abre. São "pontos facultativos" surreais, dias feriados estranhíssimos e, principalmente, ele, o fantástico "Sistema". Vamos abrir um parágrafo para o Sistema, porque ele merece!

O Sistema são cinco PC velhos - três para utilização dos funcionários no registro de empréstimos, cadastros e devoluções - e dois outros para consulta do acervo, pelo público. Os três primeiros, quando têm lá as suas indisposições, paralizam completamente o serviço de empréstimo de livros. Nessas ocasiões, não raras, o leitor é recebido por uma quase exultante servidora pública, postada no limiar da porta de vidro que dá acesso ao acervo. Não se pode sequer entrar no reduto - e ela avisa: "Hoje, só devolução: assine aqui e coloque o livro neste caixote!" Se o infeliz usuário do serviço pergunta a data de normalização do Sistema recebe, invariavelmente, a resposta: "Semana que vem deve voltar... O rapaz que conserta..."

O Sistema é tão fantástico que até já está merecendo outro parágrafo. E olha que merece mesmo! Nele, existe um pequeno menu, à esquerda da tela do PC, e dois campos (box) para a inserção do título ou autor a ser pesquisado, à direita. Antes de tascar lá, por exemplo, "Gabriel Garcia Marquez", é fundamental fazer a escolha correta no menu: filme, slides, monografia, mapas... (tudo coisa que não existe ali!) e... onde estará a opção "livro"?
Vai-se então ao balcão, fazer a pergunta à funcionária - que nunca é a mesma... Estou certo de que vem gente de "Saneamento Básico", "Sinalização e Trânsito", "Parques e Jardins"... emprestados (e eu já ia escrevendo empestados!) Sabe-se lá que outras repartições públicas emprestam funcionários à Cultura... Mas, para honra da casa, há, geralmente presente, lá no fundo, uma senhora idosa - que parece conhecer melhor o serviço. Foi desta senhora que eu ouvi a frase quase indignada: "Livro é material não projetável, é claro!"

Não posso dizer que não gosto do Sistema. Pelo contrário, já estive a ponto de dar um beijo e um abraço no PC das consultas. E olhe que eu falo mesmo com objetos aparentemente inanimados (como, por exemplo, bebedouros que nunca vertem água, sanitários sem descargas, elevadores com todos os botões indicativos dos andares desnumerados...)
Eu havia feito a seguinte pesquisa: "Miguel Torga". Resultado: zero! Vagando pelos escuríssimos corredores de estantes, com minha indispensável lanterna de quatro pilhas, encontrei nada menos que nove livros de Miguel Torga, organizados e colocados no local correto, justiça seja feita! Na saída eu disse para o Sistema: "Grande piadista! Sempre me proporcionando as mais agradáveis surpresas... Malandrão!! Isto é um humorista inato!"

Que felicidade! Mas isto não foi hoje. Já faz tempo. Agora eu somente cumprimento, de longe, o velho e chalaceiro PC, o pândego terminal do Sistema.

O local é um pouco perigoso e já vou dizer porquê. Mas, onde encontrar alguns livros maravilhosos, fora de catálogo, sem esperanças de reedição, senão num lugar onde quase ninguém os lê e estão tão bem guardados (relegados por falta de leitores)? Há goteiras em profusão quando chove. Mas, como Deus é literato, elas, as gotas, geralmente caem sobre os best-sellers ou corredores vazios. Problemas mais sérios são os furtos.

Parece - é o que dizem os guardas, quando perguntados - que alguns dos estudantes da rede pública, talvez os mesmos que assustam e mantêm sob intimidação permanente seus professores dentro das próprias salas de aulas, cometem ali o furto de livros. Muitos livros. Para vender. Também há a proximidade da Central do Brasil, um antro. Então há um sistema de segurança tosco.

Há escaninhos onde devem ser deixadas bolsas, sacolas ou qualquer tipo de objeto onde possa ser ocultado um livro. Deixa-se então, sob a guarda de um desconhecido - que varia de semana a semana e que não possui nenhuma identificação visível -, tudo o que não seja o livro a ser devolvido.
Recebe-se, deste incógnito, um retângulo de papelão numerado a mão, com uma pilot, para o resgate dos pertences pessoais, na saída.

Há sazões, ciclos, mas eles são aleatórios - dependendo da maré de rapinagem. Antes, era um fortão que examinava o livro e a papeleta de empréstimo. Este "um fortão" também muda amiúde. Somente o que não muda é o fato de que esse policiamento, quando feito, é centrado mais nos humores do vigilante do que na confrontação entre o recibo de empréstimo e o livro que o suspeito está tentando retirar dali. Fica óbvio que custa a esses homens fazer as duas leituras: título do livro e título constante da ficha de saída!

Hoje estive lá. Quinta-feira, 9 de agosto de 2007. Levei a lanterna com as pilhas recarregáveis, na carga máxima. Eu tinha um propósito, já que tenho o hábito de sempre duvidar de mim mesmo... Não é nada seguro confiar em si...

Examinei, pela enésima vez, os escuros mas bem sortidos corredores onde dormem os livros de autores brasileiros. Livro a livro, a maioria meus velhos e decepcionantes conhecidos. Quase todas as lombadas examinadas, muitas orelhas lidas... E nada! Sem novidades promissoras. O que há de novo é frustrante. Mas não foi de todo inútil a minha busca...

Descobri ali, nessa garimpagem, um erro meu. Na resposta aos comentários feitos por um leitor sobre um texto que eu havia escrito, "A Estupidez Letrada", atribuí a autoria de "Os Tambores de São Luis" a Antonio Callado, quando, justiça seja feita, de novo, quem fez enrubescer de pudor um negro retinto africano foi Josué Montello, neste que é considerado o seu "melhor romance". Vai aqui o mea-culpa de um imbecil, eu, que faço confusões entre gêmeos e ainda mais se eles forem siameses! Já explico, calma...

Celso Kelly, que dá nome à biblioteca, foi diretor geral do Departamento Nacional de Ensino do Ministéiro da Educação, desde o começo da Ditadura Militar que nos assolou. Foi ele o responsável pela criação da primeira "grade-curricular" do primeiro Curso de Comunicação Social, após presidir a Associação Brasileira de Imprensa (cuja carteira de Jornalista, Categoria Sócio-Militante, número 3287, a minha, eu rasguei em quatro no final dos anos 80, depois de cansar de reclamar com o venerandíssimo Dr. Barbosa Lima Sobrinho para que parasse de utilizar o dinheiro de nossas contribuições na propaganda eleitoral que o eternizava na Presidência!).

Pois bem, Celso Kelly esteve na ABI, muito antes de mim, é claro, e não cheguei a conhecê-lo. Morreu quando eu ainda era uma criança de 10 anos de idade. Mas, vejamos algumas sutis ligações...

Josué Montello viveu uma vida chapa-branca longuíssima: Diretor Vitalício da Biblioteca Nacional e idem, idem, do Serviço Nacional de Teatro, foi amigo de Juscelino e de todos aqueles que o sucederam, sem exceções. Era amigo de quem estivesse no poder, não importando se o sucessor matou ou não o seu antecessor. Assim fez até findar seus dias, em 2006. Compadre, vizinho, conterrâneo, cupincha e colega de Academia Brasileira de Letras de Antonio Callado, quem lê um já tem o outro lido!

Por sua vez, Ana Arruda Callado, esposa de Antonio, chegou ao patamar de Diretora "Professora Doutora" do Departamento de Comunicação Social da UERJ, de onde, ao que se saiba, jamais saiu um jornalista sequer de expressão.

E assim vai caminhando a Cultura e a Literatura no Brasil. Dentro do canil de um pequenino grupo de compadres, que não larga o osso e, por outro lado, não produz nada que possa ser considerado significativo (maus hábitos que causam malefícios incalculáveis às letras pátrias - já que abiscoitam sinecuras, prêmios literários combinados, vantagens diversas e honras literárias risíveis), pouco ou mesmo nada ficando à disposição de alguns talentos verdadeiros que florescem e fenescem nas sarjetas do desconhecimento e do desamparo total.

Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant'Anna, familiarmente, marido e mulher, abocanharam também não poucas tenças e benesses dentro deste pequeno círculo de apaniguados. E no entanto o povo não os lê, e nem lerá jamais. Nem mesmo o brasileiro razoavelmente letrado liga a mínima para esses dois. Então por que tantos cargos, representações e viagens patrocinadas pelo Governo?!

Não são poucos os casos - mas o grupo dos varrões assinalados é bem restrito. Sempre os mesmos. Aqueles que exercem esse péssimo vício - associar um trabalho de criação a garantias permanentes, graças aos bons ofícios de amigos bem colocados -, vêm sufocando o surgimento de novos escritores e comprometendo a sobrevivência da literatura brasileira. Por tudo isto, pela existência de uma arte-funcionária-pública, de um pequeno grupo de artistas consagrados pelos amigos, foi que deu no deu a nossa paupérrima literatura.

Um dos maiores autores brasileiros, Graciliano Ramos, sempre procurou contribuir com a Cultura e com melhoramentos gerais em nosso país. Porém, um após outro, foi abdicando de cargos públicos - mesmo aquele em que foi eleito pelo voto popular, Prefeito de Palmeira dos Índios - AL -, por discordar do que via e querer fazer mudanças que contrariavam os vícios dos políticos profissionais. Destino certo: cadeia! Este, que eu me lembre, foi o único escritor brasileiro de renome que não se deslambeu diante do poder e do dinheiro palaciano.

E, para que não se diga que não falei de nenhuma flor, Elio Gaspari, o maior nome das letras brasileiras atuais (mesmo não sendo um autor de ficção), nem mesmo nasceu no Brasil, mas sim em Nápoles, infelizmente... Escreveu a sua obra notabilíssima com o apoio conseguido fora do Brasil, uma bolsa fornecida pelo Wilson Center for International Scholars.

Gaspari escreveu sobre a história recente do Brasil. Por que razão não foi patrocinado por nós? Talvez seja porque o Governo esteja sempre com os cofres da Cultura vazios. A gente entra em qualquer biblioteca nos EUA, no Canadá, nos principais países da Europa, e elas estão abarrotadas de livros de José Sarney, Antonio Callado, Zélia Gattai, Marina Colassanti. Tudo editado, impresso, distribuído, empurrado mesmo, sob o patrocínio do Governo do Brasil.

Pena é que eles também não tenham contratado pessoas para lê-los: estão às moscas, intocados.

O chapabranquismo destrói, avilta e empobrece a obra de qualquer artista. A condição estável, sossegada, de servidor público (jardim propício ao florescimento do descaso, do escárnio e da fatídica doença da fartura excessiva, que um autor não pode contrair), é, além do mais, uma ofensa a quem lhes paga o salário - através de impostos recolhidos compulsoriamente.

Nota: Desde novembro de 2008 a Biblioteca Estadual Celso Kelly está fechada para reformas. Indaguei a respeito, antes do fechamento, e mostraram-me o projeto arquitetônico das reformas. Aquilo que era um tugúrio mal iluminado irá se transformar em uma biblioteca germânica, ou, temo, pior ainda, de estilo suíço (chocolate suíço).
Cafeterias, ar condicionado central, muito paisagismo, lounges (quiçá com lareiras!), auditórios, heliponto... Indo além e perguntando sobre a previsão de conclusão das obras fui informado que elas estariam concluídas "daqui a uns dois ou três anos..." ...e se o acervo iria finalmente ser acrescido... "isto não faz parte do projeto e nem do orçamento, isto já é outra coisa..."
Temo que esta biblioteca jamais volte a abrir suas portas. A verba, esta sim, deverá evaporar, como ocorreu com os recursos oriundos do exterior para o "Projeto de Despoluição da Baía da Guanabara", tragados que foram pelo lodo, não da baía, mas por aquele existente nos bolsos dos nossos políticos.
É uma pena. Onde encontrar, em regime de empréstimo (tente ler os dez volumes de Casanova nas cadeiras da Biblioteca Nacional... a gente quer é livro emprestado, para ler em casa!), obras que não têm a menor chance de serem reeditadas, por não possuírem o apelo comercial banal que agora é regra no meio editorial?

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