quinta-feira, 11 de junho de 2009

Despertar



Só depois lembrei do hospital. Bem depois. E foi lembrança rápida, embora daquelas intensas, que trazem consigo os aromas e também as dores. Mas isto foi bem depois.
Primeiro veio a lembrança daquela manhã. Ventava alto, lá pelas copas das árvores. No chão, nada se movia. Manhã amena, coisa de abril ou maio, talvez. E o silêncio.
A folhagem verde-nova brilhando antes do céu, azul puríssimo, sideral, bem ali acima do Campinho – um terreno abandonado onde despejavam o lixo.
E a mosca. Foi ela, quase parada em seu vôo, brilhando verde-metálica, quem me despertou. Olhei o céu e vi o vento, nas folhas largas da amendoeira grande. E alto, altíssimo, o azul. Então foi que senti: estou acordado.
Mas agora me chamam e preciso ir. Talvez seja minha mãe. Tenho de ir e viver a vida. Afinal, ainda não completei três anos de idade, dois e pouco, parece.
Se cada despertar é um milagre, uma ressurreição, o primeiro deles, o despertar da consciência, é uma ressurreição de fato. E deixa a maior de todas as lembranças. Vive-se sessenta, noventa e poucos anos. Ou dez. Uns acham pouco, outros demasiado… Momentos de quase glória e de ruína; lembranças, esquecimentos… E o mais de tudo, absurdamente, – aquilo que volta sem ser chamado – é, quase sempre, um momento que parece estúpido, insignificante em si.
O menino cresceu, vingou como a erva daninha num pasto – que apesar de cortada, arrancada, ninguém extingue toda. E resistindo aos cortes, nos pés, no coração, viveu. Varou o mundo-largo – mas também cumpriu as longas e penosas sentenças do tédio. Não há escolha. Nenhuma. Acontece.
Outra vez despertei. Já não era um menino. Pelo contrário, um homem velho e doente. Exausto.
Me lembro que era noite e que era tarde. O hospital, os cheiros. O peito me doía forte. E, por causa da dor, a visão me turvara em névoa espessa. Ainda assim não pude deixar de notar uma criança pequena, que tinha os cabelos empapados em sangue, partir pouco depois de ter sido colocada ao meu lado, numa espécie de maca.
Não sei o tempo e o lugar. Isto não tem importância. Não havia luz elétrica e a penumbra virava escuridão em alguns pontos daquilo que parecia ser um quarto antigo. A dor, ela própria, foi me aliviando, colocando-me num estado de quase insensibilidade física. Mas o pensamento pulsava; o medo foi se transformando numa espécie de indiferença. À minha volta havia uma movimentação apressada de pessoas sem rosto. Depois, um cantinho da sala, onde a treva era mais densa, foi crescendo, se aproximando de mim e espalhou-se – até tomar tudo. Então acho que foi aí que esqueci de mim.
Somente fui me lembrar, novamente, sob a amendoeira grande – encantado com as cores daquela mosca metálica que brilhava ao Sol.
Não tive sonhos e de outras coisas não lembro. A Morte não explica nada.

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