terça-feira, 9 de junho de 2009

Tirando a razão, de Platão...

“A opinião da maioria quanto ao conhecimento é que ele não é algo poderoso, capaz de controlar e governar um homem; eles não vêem deste modo em absoluto, mas julgam que frequentemente um homem que possui conhecimento é governado não por este, mas por alguma outra coisa: em um caso a paixão, em outro o prazer, em outro a dor, às vezes a luxúria, muito comumente o medo; eles só vêem o conhecimento como um escravo que é arrastado para lá e para cá por quem o possui.
Então, você tem uma opinião semelhante com respeito ao conhecimento ou pensa que ele é algo excelente, que pode governar um homem e que, se alguém souber o que é bom ou mau, jamais será conquistado por coisa alguma de modo a agir de outra maneira que não a ditada pelo conhecimento? De fato, a inteligência é salva-guarda suficiente para um homem?” Platão, (século IV A.C)

Não foram poucas as grandes inteligências assoladas e vencidas pela miséria. Todo o tipo de misérias, as mais mesquinhas possíveis, em casos tristemente incontáveis. Às vezes somos mesmo levados a pensar que o conhecimento, o amor e a dedicação ao pensamento, trazem em seu próprio bojo a marca da desgraça – e da solidão.

Então, a inteligência não serve para nada?

Ora, se pretendermos entender o motivo pelo qual, por exemplo, Luís de Camões morreu em estado de indigência completa, Dostoiévski viveu uma vida infelicíssima e jogou tanto, contra si mesmo, Miguel de Cervantes apodreceu no cárcere, Fernando Pessoa e Lima Barreto beberam até cair - e morrer - e tantos outros homens grandes aparentemente não souberam utilizar suas inteligências privilegiadas em proveito próprio, deixemos, desde já, o verbo transitivo indireto, servir, de lado.

Aliás, se quisermos aqui fazer um pequeno tratado sobre a sensatez, a temperança, a prudência, a abastança, falemos sobre comerciantes ricos ou funcionários palacianos bem colocados. Eles existem há milênios, como os sábios.

Tudo nos leva a crer que o surgimento de uma mente privilegiada é um fenômeno fortuito, inato e absolutamente natural. Entenda-se por natural a premissa de que, por mais que possa ser tentado, não é possível criar um gênio, propositadamente, nos bancos universitários, por exemplo.

Por motivos pouco conhecidos, mas bastante observados, a humanidade parece ter sido composta, desde tempos imemoriais, por um percentual razoável de pessoas possuidoras de inteligência mediana, uma quantidade ínfima de mentes brilhantes e um bloco majoritário de pessoas que, mesmo quando têm à sua disposição todo um arsenal educacional, ou, ainda, se tivessem, não ultrapassariam o limite daquilo que poderíamos chamar sofrível.

Não se trata de darwinismo social, nem há crenças malthusianas da parte deste escriba, que não crê em nada. São observações colhidas na história da humanidade – e também nas ruas, no meu tempo.

Não é vedado ao terceiro grupo de intelectos, aquele que denominei ilustrativamente de sofrível, o enriquecimento monetário, por exemplo, ou o progresso relativamente tranquilo numa carreira acadêmica qualquer. Por outro lado, parece não haver registro algum de uma ascensão sequer de um sofrível ao patamar imediatamente acima, o intermediário, assim como, por seu turno, ser improvável ao extremo que um mediano alcance por qualquer meio ou forma o primeiro dos patamares, aquele das mentes brilhantes.

Determinismo? Não creio. Talvez, sim, "observismo"...

Eu penso que homens brilhantes não costumam ser práticos. E que não agem assim de forma deliberada. Há um componente de sonho, de distanciamento do comezinho, que costuma fazer parte da mentalidade de homens que possuem um intelecto privilegiado. Algumas vezes esse componente pode adquirir proporções catastróficas, como ocorreu a Oscar Wilde e a Charles Baudelaire - somente para dar dois exemplos significativos, dentre centanas.

Certa vez, lendo uma boa biografia de Isaac Newton, escrita por um homem para quem a ciência não era coisa estranha, surpreendi-me bastante ao constatar que esse autor atribuía, em diversos trechos da obra, às práticas alquímicas de Newton uma fraqueza, um obscurantismo, um ranço de seu tempo. E dizia ainda ser quase inconcebível o fato de que um homem possuidor de tamanho brilhantismo pudesse deixar conviver em si mesmo ciência pura e alquimia...

Ora, talvez Newton tenha feito suas descobertas – que considero as mais importantes na história da ciência – justamente por ter sido um praticante da alquimia.

Porque o alquimista, o antigo, o clássico alquimista, aquele que chegou a queimar a mobília e as traves do teto para alimentar a chama do forno do conhecimento, era o cientista e mais o seu sonho, somados. Foi com eles que começou aquilo que hoje conhecemos como Ciência.

Quanto à citação de Platão, com a qual iniciei estas linhas, não acho que ele tenha acertado – e, muito menos, errado. Platão não fez nenhuma assertiva. Somente perguntas.

Platão não sabia as respostas... Talvez, justamente por isto, tenha sido Platão.

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