terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Intercessão


- Mãe! Você por aqui... Não veio ontem...

- Ocupada, meu filho. Lavando, passando e ainda fiz uma faxina... Trouxe bolo.

- Oba! É de cenoura? Não devia se matar deste jeito...

- Fiz de laranja. Dizem que a cenoura está que é puro agrotóxico.

- Quais são as novidades? O que se conta de bom?

- Está tudo velho. Não anda lá essas coisas. O de sempre...

- O de sempre e como sempre, não? Chega a dar tédio... Humm está uma delícia!

- Você quer que eu faça café?

- Obrigado, mãe, mas estou evitando. Parei com o cigarro...

- Não devia comer nada a seco. Você sabe a prisão de ventre que tem...

- Você tem razão. Não obro há dois dias. Aceitaria era uma vitamina das suas... Faz?

- Agorinha mesmo. Já comprou a aveia que tinha acabado?

- Hoje mesmo. Ainda está naquela sacola, em cima da pia...

- Meu filho... Isto está uma bagunça... E você nem me deixa arrumar...

- Mãe, não quero abusar. Não ligo para isto – e você não é mais nenhuma garotinha...

- Eu vim pelo Jurandir. Está se esvaindo. Agora é só água e já falaram no cólera...

- Cólera divina, com toda certeza. Sempre fazendo por onde...

- É fraco, não sabe? Sempre fez o que pôde.

- Verdade. E sempre foi rápido em entregar-se àquilo que não pôde...

- Meu filho, ele está muito mal... E sofrendo bastante. Sempre sofreu. Você podia...

- Talvez sim, se ele merecesse. Mas, você sabe: é um verdadeiro pilantra!

- Coitado! Com aquela vida que tem... Sempre sem chances de endireitar o rumo...

- Eu sei. Mas... sei lá... parece que já não tem jeito. E acabou gostando assim mesmo.

- Nós já vimos gente pior... E que acabou se acertando...

- Um aqui, hoje... outro ali - uns dez anos depois...

- Eu sei, meu querido. Tudo muito difícil... verdadeira odisséia...

- Lembrou bem! Homero era cego: e olha o trabalho que fez. Lutou, se esforçou.

- É assim mesmo. Uns deixam obras, outros deixam filhos; crianças que vão passar fome...

- O Jurandir já anda em que número?

- Quatro meninos e cinco meninas. Tudo ainda pequeno, naquele capinzal esquecido...

- Não perdeu tempo, não é? Que gente! Dão sempre um jeito de piorar as coisas...

- Eles não sabem direito o que fazem... Meu filho... ele me pediu tanto!

- Imagino. Nessas horas é que se lembram...

- Já é alguma coisa. Tome, beba tudo: não botei muito açúcar, porque faz mal aos dentes...

- ...to boa, só mesmo você... não há lanchonete que imite isto... consola a gente...

- Tão fácil... E não dá trabalho nenhum... Meu filho, faça isto pela sua mãe...

- O que a senhora me pede chorando... que eu não faça sorrindo?... Não sai um beijinho?...

- Tome, querido. Você anda tão magro...

- É de trabalhar de graça... Já está, mãe! Parou a corredeira, e amanhã o bruto levanta.

- Obrigada, meu filho! É muita bondade! Sabia que iria ter pena...

- Vai, minha velha. Eu agora tenho o batente... A senhora devia era fazer o curso de Direito...

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